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As equipes de médicos da Arábia Saudita são convidadas ao laboratório de Moscou para estimar a nova vacina russa contra o coronavírus

Em uma entrevista exclusiva ao Arab News, Kirill Dmitriev, CEO do Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF), explicou a razão do registro acelerado da vacina bem como as origens do que ele acredita ser uma reação bastante fria do Ocidente a este passo potencialmente inovador na luta contra a pandemia.

DUBAI: A Rússia surpreendeu o mundo na semana passada anunciando o desenvolvimento e a produção de uma vacina (nomeada "Sputnik V") para combater o COVID-19. Muitos especialistas e comentaristas da mídia criticaram os russos por sua pressa em anunciar a criação da primeira vacina (do mundo) apesar da falta de dados de testes adequados, em particular de fase 3, em humanos.

O Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF) desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento de Sputnik V. Em uma entrevista exclusiva ao Arab News, seu CEO Kirill Dmitriev explicou a razão para o registro acelerado da vacina e a reação um tanto morna do Ocidente a este passo potencialmente revolucionário na luta contra a pandemia.

AN: A que ponto inesperada foi para vocês a reação de alguns meios de comunicação internacionais?

KD: Inicialmente percebíamos que a reação no mundo seria mista. Em todos os países existe uma divisão: de um lado, pessoas comuns sonhando com uma vacina e entendendo que ela é, em princípio, o de que todos nós precisamos. Por outro lado, há vários políticos, algumas empresas farmacêuticas e a mídia que não pensam assim.

Também existem diferenças em de cada país. Dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e alguns outros países europeus, podia-se observar uma reação extremamente negativa, diria mesmo, de ciúme. E da parte do Oriente Médio, da Ásia, era muito benevolente, na América Latina - até muitissimo. Acho que a reação em diferentes regiões do mundo é diferente, esperávamos isso.

Acho que nesse sentido é muito importante entender a posição da Rússia. Não impomos uma vacina a ninguém. Atualmente a vacinação afetará apenas os cidadãos russos. Só queremos declarar que temos essa tecnologia. Deve-se observar que possui vários recursos exclusivos. Se você permitir, posso dizer brevemente o que nos levou a esse desenvolvimento, com que rapidez o abordamos e quais são as bases científicas sobre as quais foi realizado.

Pelo que entendemos, alguns países gostariam obter informações mais detalhadas e talvez seguir na mesma direção. Mas o problema é que, em muitos países, o próprio fato de algo ter sido feito na Rússia causa rejeição e mal-entendidos. Deixe-me fazer uma analogia: se oferecíamos a distribuição de água para os Estados Unidos, provavelmente haveria artigos na mídia de que essa água esteja envenenada, ou sua receita seja roubada, ou talvez de que contenha uma mistura de vodka.

AN: É importante notar que tem havido algumas críticas das comunidades academicas sobre o ritmo extremamente rápido de desenvolvimento da Sputnik V e a falta de dados (de apoio).

KD: Algumas das perguntas são legítimas, pretendemos dar as respostas publicando os dados relevantes em agosto. É importante notar que a questão de fornecer dados de apoio é bastante justificada e acho, é claro, que deveríamos ter feito isso antes. Provavelmente já no final de agosto os dados serão publicados: quero dizer, os dados dos resultados da 1ª e 2ª fases dos estudos, inclusive em animais. Agora já iniciamos a 3ª fase. Ou seja, o volume de dados divulgados só vai crescer, concordamos que esse processo deveria ter sido acelerado desde o início.

Posso dizer uma coisa: sabemos que a tecnologia funciona e se você me permitir estou pronto para dizer o que a torna única. É que as vacinas sempre foram nossa vantagem. Não é preciso buscar longe para dar um exemplo: Catarina a Grande foi vacinada 30 anos antes do surgimento da primeira vacina "americana" – parece-me qui foi em 1762. A União Soviética herdou essa vantagem no desenvolvimento de vacinas.

A rigor, nossos cientistas já tinham feito muito trabalho básico para essa vacina em particular. O fato é que com uma experiência exitosa no desenvolvimento de uma vacina contra o Ebola que foi aprovada aplicaram o mesmo método na criação da vacina MERS: o desenvolvimento de um vetor de vacina a partir do adenovírus humano. Quando o coronavírus apareceu, nossos cientistas já tinham uma plataforma comprovada. Estamos falando de uma plataforma para uma vacina contra MERS, o síndrome respiratória do Oriente Médio, que tem propriedades muito semelhantes às do coronavírus.

Este vetor adenoviral é essencialmente um vetor baseado em adenovírus humano. Ele tem sido objeto de estudo de cientistas de todo o mundo nos últimos 20 anos. Durante este tempo dezenas de estudos foram realizados com a participação de dezenas de milhares de pessoas. No resultado daqueles estudos se comprovou que o adenovírus humano é seguro e não causa efeitos a longo prazo.

É muito diferente do mARN (mRNA) e do adenovírus de macaco que quase não foram estudados nos últimos 20 anos e permaneceram fora do escopo de dezenas de estudos clínicos. Francamente, essas são abordagens novas e até inovadoras. Esperamos que funcionem embora tenham sido estudados em uma extensão muito menor. Resumindo, posso dizer que a presença desta plataforma comprovada nos permitiu seguir em frente.

AN: Por que você não espera até o final de agosto e não anuncia o desenvolvimento da vacina após a publicação dos dados?

KD: Fomos motivados por considerações éticas: sabendo que temos tecnologia da qual estamos certos que funciona, nos esforçamos para disponibilizá-la a todos. Seria irresponsável atrasar a introdução de uma vacina que sabemos que funciona e depois recusá-la às pessoas que precisam de proteção.

Queremos que todas as verificações necessárias sejam realizadas pelos representantes de quaisquer países. Nosso Ministério da Saúde fez isso na Rússia e, segundo sua conclusão, a vacina é eficaz e segura. Em seguida, procurámos disponibilizar a vacina a todos os cidadãos de nosso país. Pessoas morrem todos os dias de coronavírus e queremos protegê-las. Ao fazer isso, partimos das necessidades clínicas e pessoais da população.

AN: E quanto à falta de dados sobre os resultados dos testes da 3ª fase?

KD: De acordo com a nossa legislação, durante uma epidemia, a 3ª fase pode ser realizada ao mesmo tempo que a distribuição da vacina. Basicamente, é claro, estamos falando de tecnologias que já se provaram seguras.

Em outras palavras, se tentássemos (para a fabricação de uma vacina) usar o mARN ou o adenovírus de macaco cuja eficácia permanece controversa, em nenhuma circunstância procederíamos à introdução prática da vacina sem passar com sucesso a 3ª fase. Mas já temos uma vacina aprovada baseada no vírus Ebola para a qual desenvolvemos um banco de dados sobre os últimos seis anos sem falar das pesquisas sobre os vetores de adenovírus humanos em vários países do mundo que foram realizadas nos últimos 20 anos.

Deixe-me dar um exemplo mais simples. Uma vacina pode ser imaginada como uma combinação de duas partes. Temos o código do espinho de coronavírus que precisamos entregar às células para que os anticorpos se desenvolvam lá. Quase todas as vacinas, de forma simplificada, são caracterizadas pela presença de mais ou menos o mesmo espinho.

Portanto, a única coisa que distingue um vírus de outro e que, portanto, requer mais atenção é o mecanismo de sua entrega. Nossos mecanismos de entrega são baseados no adenovírus humano que se provou seguro no passado. Por exemplo, nos últimos 20 anos, houve estudos que mostram claramente que não causa câncer.

Por isso é que usamos tecnologias seguras e comprovadas para fornecer o espinho do coronavírus. Conhecendo essa base científica você pode se perguntar: "Ok, o que ainda pode dar errado?" A maioria dos problemas com quase todos os vírus está ligada ao mecanismo de distribuição.

Veja a AstraZeneca, por exemplo. Esse grupo farmacêutico multinacional também envolvido na pesquisa de vacinas usa adenovírus de macaco, que nunca foi estudado na população humana em longo prazo. Achamos que aos países do Ocidente faltam melhores práticas nesse sentido. O fato é que o mARN (um método alternativo de vacina em desenvolvimento no Ocidente) nunca foi estudado antes.

Em outras palavras, a tecnologia aprovada na Rússia é baseada em pesquisas seguras e previamente comprovadas e é simplesmente um mecanismo de entrega do espinho do coronavírus.

AN: Você poderia entrar em detalhes sobre o acordo entre a sua agência e a Arábia Saudita para a realização de testes naquele país?

KD: Na verdade, chegamos a um acordo de princípio com a Arábia Saudita para realizar testes clínicos naquele país. Como parte desse processo, uma delegação do Ministério da Saúde da Arábia Saudita visitará o Centro Nacional de Pesquisa em Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya. Já temos um parceiro no Reino da Arábia Saudita, uma empresa saudita muito boa. Nesta fase evito revelar o nome dela. Direi apenas que se trata de uma empresa farmacêutica experiente que já está trabalhando conosco e com a qual compartilhamos dados sobre os resultados da 1ª e 2ª fases dos ensaios.

Acreditamos em uma verdadeira parceria estratégica com a Arábia Saudita para o desenvolvimento de vacinas. Sabemos que muitos países respeitam a posição e abordagem da Arábia Saudita e estamos prontos para cooperar com os cientistas sauditas, o Ministério da Saúde da Arábia Saudita assim como compartilhar com eles conhecimentos sobre nossos desenvolvimentos. Acreditamos que a Arábia Saudita acabará por se tornar um parceiro poderoso em nosso trabalho conjunto na vacina Sputnik V.

Também compartilhamos os dados com os Emirados Árabes Unidos. Esperamos que os testes comecem lá em agosto.

Estimamos que além da Rússia os ensaios clínicos da vacina serão realizados na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Filipinas e Brasil.

AN: Então você tem a vacina. Seria verdade que realmente não se importa para você se o resto do mundo o adota ou não?

KD: A nossa maior prioridade é definitivamente a segurança de nosso pessoal. Acreditamos termos uma vacina confiável e segura. A vacinação em massa de nosso povo começará em outubro. Se apenas a Rússia for vacinada, mesmo assim será um grande sucesso, já que desenvolvemos uma vacina antes dos outros e pudemos, assim, salvar mais vidas. Para nós no primeiro lugar são a vida e a saúde dos nossos cidadãos.

Por outro lado, achamos que também é nossa responsabilidade compartilhar abertamente com o mundo a tecnologia que possuímos e que sabemos que funciona. Tudo o resto depende individualmente de cada país. Se os outros países querem tomar a nossa tecnologia ou não, nós, não nos importamos, já que não perseguimos nenhum objetivo egoísta a esse respeito.

O desenvolvimento é realizado como um projeto não comercial. Tentamos garantir que o preço da vacina inclua apenas o mais necessário - para cobrir os custos de seu desenvolvimento e distribuição. Repito, não estamos falando de superlucros. Em vez disso, trata-se de objetivos humanitários. A nossa responsabilidade é notificar outros países de que temos a vacina Sputnik V e como ela funciona. Todas as informações necessárias serão publicadas. Aqui é que a nossa responsabilidade perante os outros países, achamos que se esgota.

Já temos pedidos de 1 bilhão de doses da vacina. Este é um volume muito grande. Se alguém se interessar pela vacina, é nossa responsabilidade disponibilizá-la. Para isso, vamos colaborar com outros cinco países tanto na produção da vacina quanto na distribuição para os países que dela precisarem.

Não estamos tentando convencer os EUA. Não estamos tentando convencer a Europa. Cumprimos o nosso dever: desenvolvemos uma vacina, estamos prontos para vacinar os nossos cidadãos, informamos todos os interessados ​​sobre a sua disponibilidade e demos oportunidade aos países que estão dispostos a cooperar connosco nesta área para a produzirem em parceria.

Estamos tentando fazer tudo o nosso possível sem impor nada a ninguém e sem tentar convencer ninguém de nada.

AN: Quanto custará uma dose?

KD: Podemos falar sobre isso em setembro ou outubro pois estamos expandindo a produção fora da Rússia e queremos ir para a categoria de preço mais baixo. Precisamos de passar para a produção em grande escala. Para isso precisamos de mais alguns meses.

Por enquanto, tudo o que posso dizer é que os preços serão muito competitivos. De acordo com algumas outras estimativas feitas por outros especialistas, esperamos que os nossos preços sejam mais baixos do que o que vemos atualmente neste segmento.

https://www.arabnews.com/node/1719931/business-economy

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